Não sei o que dizer daquela manhã. Talvez fosse março, talvez abril. O que me surpreende é que é a única manhã que me lembro. Talvez não fosse tão cedo assim...
É certo que eu esperava, como antes esperei, esperava ver o rosto que não me respondia nada, mas sanava minhas dúvidas.
Cá entre nós, caso já tiveste que esperar a chegada do derradeiro minuto que precede um estimado e aguardado encontro de olhares, saber precisamente o que é esquecer de todo a função do intelecto em prol de certa espontaneidade ritual, pois uma única troca de olhares, ainda que breve, entre dois seres apaixonados é tanto consequência física como um rito único e inexplicável.
Se ainda não perdeste o foco em teus próprios devaneios e memórias, é por que tais situações foram demasiadamente frugais para o teu entendimento, e isso deve-se apenas lamentar uma vez, e em segredo.
Eu mesmo perco-me em divagação, e se minha memória falha em especificar melhor aquela manhã, ou tarde é justamente uma das consequências físicas daquele torpor que se apoderou de mim naquele mesmo dia: eu não sabia que desperto, ainda que fosse pelo amor, estaria fadado a esquecer tudo mais, por esquecer de mim.
Te pouparei os detalhes ternos e cálidos daquela manhã, ou tarde, de março, ou abril. Destarte, evitarei minhas lágrimas; a história, porém, nada perderá em essência: aquele que já teve sua amada ao pé de si, aquiescendo seu amor no silêncio de um sorriso e no mútuo deleite da contemplação, sabe que é inútil, e arriscado, elaborar descrições sobre o que vemos nos olhos do amor quando estacam os relógios e aceleram os corações...
De cada infinito detalhe que eu retenho daquele dia, nenhum é tão doce e infinito quando o lânguido olhar de despedida unido ao sorriso esperançoso e de lábios tão ansiosos quanto os meus; e esse gesto, que me foi concedido a distância, preenche um vazio no meu peito que me pergunta: "Quanto tempo se passou desde aquela manhã, ou tarde, onde dois sonhos se uniram numa só lembrança ?"
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