Não sei o que dizer daquela manhã. Talvez fosse março, talvez abril. O que me surpreende é que é a única manhã que me lembro. Talvez não fosse tão cedo assim...
É certo que eu esperava, como antes esperei, esperava ver o rosto que não me respondia nada, mas sanava minhas dúvidas.
Cá entre nós, caso já tiveste que esperar a chegada do derradeiro minuto que precede um estimado e aguardado encontro de olhares, saber precisamente o que é esquecer de todo a função do intelecto em prol de certa espontaneidade ritual, pois uma única troca de olhares, ainda que breve, entre dois seres apaixonados é tanto consequência física como um rito único e inexplicável.
Se ainda não perdeste o foco em teus próprios devaneios e memórias, é por que tais situações foram demasiadamente frugais para o teu entendimento, e isso deve-se apenas lamentar uma vez, e em segredo.
Eu mesmo perco-me em divagação, e se minha memória falha em especificar melhor aquela manhã, ou tarde é justamente uma das consequências físicas daquele torpor que se apoderou de mim naquele mesmo dia: eu não sabia que desperto, ainda que fosse pelo amor, estaria fadado a esquecer tudo mais, por esquecer de mim.
Te pouparei os detalhes ternos e cálidos daquela manhã, ou tarde, de março, ou abril. Destarte, evitarei minhas lágrimas; a história, porém, nada perderá em essência: aquele que já teve sua amada ao pé de si, aquiescendo seu amor no silêncio de um sorriso e no mútuo deleite da contemplação, sabe que é inútil, e arriscado, elaborar descrições sobre o que vemos nos olhos do amor quando estacam os relógios e aceleram os corações...
De cada infinito detalhe que eu retenho daquele dia, nenhum é tão doce e infinito quando o lânguido olhar de despedida unido ao sorriso esperançoso e de lábios tão ansiosos quanto os meus; e esse gesto, que me foi concedido a distância, preenche um vazio no meu peito que me pergunta: "Quanto tempo se passou desde aquela manhã, ou tarde, onde dois sonhos se uniram numa só lembrança ?"
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
Vem
Vem sentar-te ao meu lado,
Aqui, nessa beira de rio.
Esqueças que um dia não haverá
Eu, tu, o rio, e todos os dias belos.
Vem lembrar comigo do nosso amor,
Como um passado que nos manteve jovens,
E com seu silencioso crepitar nos aqueceu
Afastando o frio da solidão.
Vem, para que eu possa ler nos teus olhos
Aquele amor tão puro e espontâneo
Que evita-se enunciá-lo por medo de que,
Tornando-se tangível, quebre-se.
Vem, escuta-me dizer-te ao teu ouvido
Que tua incerteza só é,
Se não puderes ver,
E só verás se escolheres ver.
Espero por ti, nessa mesma beira de rio
Cada um dos meus frugais pensamentos aqui
Buscam conciliar a hora do meu despertar
Com a hora que chegarás até mim.
Aqui, nessa beira de rio.
Esqueças que um dia não haverá
Eu, tu, o rio, e todos os dias belos.
Vem lembrar comigo do nosso amor,
Como um passado que nos manteve jovens,
E com seu silencioso crepitar nos aqueceu
Afastando o frio da solidão.
Vem, para que eu possa ler nos teus olhos
Aquele amor tão puro e espontâneo
Que evita-se enunciá-lo por medo de que,
Tornando-se tangível, quebre-se.
Vem, escuta-me dizer-te ao teu ouvido
Que tua incerteza só é,
Se não puderes ver,
E só verás se escolheres ver.
Espero por ti, nessa mesma beira de rio
Cada um dos meus frugais pensamentos aqui
Buscam conciliar a hora do meu despertar
Com a hora que chegarás até mim.
terça-feira, 4 de outubro de 2011
Quadra epigramática
Amor, amor de contradições...
Será sina deste mesmo amor,
Amar por reconhecer-se no amado,
E, reconhecendo-se, deixar de amar?
Amor, amor... amor de dúvidas !
Duvidar das incertezas do amor,
Amar, indubitavelmente, o amado,
E depois sofrer a dúvida do amor...
Amor... de lágrimas !
Esvair-se no pranto salgado
Fluído do âmago da alma,
Pelo amor de sorrisos infinitos.
Amor de encontros...
Que transforma um olhar num laço,
Dois corações em um,
E os permite alçar voo.
Minha bela, esse vil, terno sentimento,
Que lhe peço e que lhe dou,
Existe somente para si mesmo,
Existe para nós.
Será sina deste mesmo amor,
Amar por reconhecer-se no amado,
E, reconhecendo-se, deixar de amar?
Amor, amor... amor de dúvidas !
Duvidar das incertezas do amor,
Amar, indubitavelmente, o amado,
E depois sofrer a dúvida do amor...
Amor... de lágrimas !
Esvair-se no pranto salgado
Fluído do âmago da alma,
Pelo amor de sorrisos infinitos.
Amor de encontros...
Que transforma um olhar num laço,
Dois corações em um,
E os permite alçar voo.
Minha bela, esse vil, terno sentimento,
Que lhe peço e que lhe dou,
Existe somente para si mesmo,
Existe para nós.
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