"- Mas você sabe... Não sabe ? - perguntou ele, mais com os olhos que com os lábios - Eu não quis, naquele momento, lhe fazer sentir algo diferente do que sempre demonstrei.
Foi como se... demonstrando o inverso do que eu sentia, eu pudesse adiar o momento de lhe dizer, o que sempre deveria, afim de poupar seu coração...
- E que é então ? - ela perguntou - Eu compreendo todo silêncio, exceto o seu... E talvez nunca soubesse dessa existência, se eu não pudesse lê-lo no passado.
Afinal, ele sempre se reservou a um canto do seu coração; em todo o resto posso compreender que o conheço como nunca, e é essa a razão dos meus atos.
Pois sei que vocÊ pode entendê-los. Ao menos se eu pudesse te mostrar ! Mas penso que seja exatamente isso que eu não devo fazer...
- Sim, o poeta respondeu, concordo que esse silêncio se mantenha adormecido em minha alma... Mas, se ao menos vocÊ soubesse tudo que isso significa !
Que, todos os dias, as palavras que mais se agitavam no meu peito deviam se manter em silencio, até o dia em que elas se convertessem em lágrimas salgadas...
Não, não era possível tê-la perdido ! Pois que até as poesias calavam-se, os pássaros se aquietavam, os relógios esqueciam o tempo, quando eu ouvia sua voz...
Que triste sonho foi esse ? Uma completa noite sem estrelas, onde o céu espesso e vazio se sobrepõe ante nós como pra nos mostrar nossa fragilidade...
Nenhuma voz eu podia ouvir, os lábios se moviam sem emitir som algum; os dias, as semanas, os meses não eram mais que grãos de areia numa ampulheta em minhas mãos.
Por fim, veio um raio fúlgido de sol amparar os meus ouvidos com suas cálidas palavras. E tanto elas iluminaram esse sonho, que não mais eu me senti numa fantasia.
Era agora dia, como alguns de antes, e pudemos chamá-lo de recomeço... E apesar de toda distância que pode existir entre dois seres complementares, éramos isso, ainda.
E ainda hoje tenho certeza que sempre será dessa forma. O meu medo é contar essa história de outra maneira, com um fim diferente daquele recitado pelas nossas palavras...
Mas é certo que esse medo não passa de uma breve dúvida em nossos corações, como a inexplicável nostalgia que sentimos pelo que nunca vimos, que aperta nosso peito
para depois entendermos que era apenas um vento que soprou... E assim o tempo correu, e nos trouxe até...
- Por tanto tempo você esteve enganado, e eu não pude fazer nada ! - interrompe sua amada- É isso que percebo agora... Mas ainda não posso ! Pode ser apenas um truque, mas você deve seguir sempre
em frente, sem olhar para trás, afim de resgatar Eurídice...
- Entendo perfeitamente... E teria essa coragem, se eu fosse Orfeu. Mas eu não sou, e preciso procurá-la em você... É o meu único talento, buscar os seus olhos e deles
extrair as virtudes que o Céu não entregaria a um mero mortal... E, contudo, parece que novamente eu hesito, e olho para trás no momento de atravessar o véu que
separa nossos mundos... Por quê ? Eu sinto que posso. Sinto seu caminhar leve ao meu encalço. E me falta saber, nesse instante, como suprimir meus medos, sem poder ouvir sua voz,
sem ter de você algo que me dissesse: 'Sim ! Não há por quê não sonhar, estando acordado.' É o quê eu também diria nos seus ouvidos, quando pudesse colocar novamente meus olhos nos seus.
Mas tão frágeis, tão frágeis são minhas ilusões, que seu suspiro as derruba como um castelo de cartas... E de onde vem esse suspiro ? Essa resposta é tão inconstante
que só me restaria entregar meu coração para saciar suas perguntas, se fosse possível curar suas aflições com o meu amor... Que novamente sua chama arde da mesma maneira
que sempre ardeu meu peito calado...
- Você, que tanto pode me dizer do que se passa em nossas almas, que com doces palavras disse o que todo coração espera sentir, que atravessaria o Aqueronte, como fez Orfeu, pelo meu eterno aquiescer, não sabe a resposta do seu
próprio dilema ? O amor vence tudo."